Jesus interpreta o “olho por olho; dente por dente”

Em seu conhecido sermão do Monte, Jesus ao falar sua quinta antítese (Mateus 5.38-42) sobre a vingança recorre a sentença “olho por olho, dente por dente”, conhecida como lei de talião que se trata de uma lei dada por Deus a Moisés no Antigo Testamento em Êx 19.24; Lv 24.20 e Dt 19.21. Essa lei vem de antes mesmo da lei mosaica, sua primeira aparição registrada é no Código de Hamurabi (1800 a.C.) e será encontrada em diversas outras civilizações como na Grega e Romana antigas. Jesus dirá a sua interpretação sobre tal lei, ou melhor, será sua – nova – interpretação ou será a verdadeira interpretação? O fato é que Jesus eleva tal sentença a um grau profundo de prática do perdão e da não violência.

O objetivo das leis dadas a Moisés

Antes de compreender qualquer sentença da lei do Antigo Testamento precisamos ter um olhar cauteloso do objetivo que Deus estabeleceu para tais leis, a base de toda interpretação consiste em saber que Deus deseja que Israel permaneça em uma relação de intimidade com Ele, é impossível que tal fato ocorra sem que Deus se revele e mostre como o povo deve proceder em sociedade. Por isso, Deus vai falar com o povo por meio de Moisés em Êx 19.5-8 “se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardares a minha aliança” e logo após aponta três objetivos principais da lei:

  1. Ser um povo de propriedade peculiar de Deus;
  2. Reino de sacerdotes;
  3. Nação santa.

A lei de Moisés coopera para concretização desses objetivos, porém depende estritamente da ação de seu povo em cumpri-la. Pouco depois o povo fez bezerro de ouro, as tábuas foram quebradas, vez após vez transgrediu a Lei de Moisés; a autoconfiança de Israel quando assumiu o compromisso “tudo o que o SENHOR falou faremos” não foi suficiente para permanecer firme no cumprimento dos seus mandamentos. Logo, também, acontecerá que na lei de talião será esquecido os princípios elementares de Deus contidos nela para cooperar com uma nação santa demonstrando ser filhos de Deus numa relação de justiça com o próximo e com o seu Rei, lembremos que os Profetas vão mostrar que sem amor de nada adiantaria as cerimônias e os sacrifícios (Isaías 1.1-15; Oseias 6.6; Miqueias 6.6-8) e todas as lei sociais dadas a Moisés coopera para o cumprimento do amor e santidade em Deus.

A promulgação da lei de talião

A lei de talião por vezes é retratada de maneira violenta e permissiva para vingança pessoal, porém sua aplicação legal é exatamente o oposto, em Deuteronômio 19.14-21 podemos perceber que a retaliação não era aplicada pela pessoa prejudicada, mas mediante julgamentos presididos pelos sacerdotes e juízes presentes no momento, a decisão não era de maneira arbitrária, mas diante de duas testemunhas que seriam bem indagadas para garantir que não eram falsas testemunhas, mediante a confirmação dos fatos a penalidade seria justa, segundo o maldade praticada “vida por vida, olho por olho, dente por dente…”, evitando assim os excessos comumente praticados pelo “vingador do sangue” (geralmente um parente próximo da vitima escolhido para executar a pena). Da mesma forma que tal lei trazia justiça na relação senhor e escravo, pois proibia o uso excessivo da força de modo que se algum senhor usasse de violência contra seu escravo e um dente sequer caísse, deveria alforriar o escravo (Êxodo 21.27).

Dessa forma, a lei de talião era uma medida protetiva para que a vingança não tomasse rumos intermináveis – um vingando o sangue do outro e ainda outro vingando o sangue do vingador do primeiro, e assim por diante – de modo que o sangue inocente se espalhasse dentre o povo de Deus, limitando a vingança e dando um castigo condizente com o crime, reprimindo portanto a tendência humana de vingança e moldando o caráter da nação para uma justiça verdadeiramente justa.

No tempo de Jesus, as penalidades aplicadas pelos juízes dificilmente eram literais, no geral, eles estabeleciam valores monetários avaliados para cada crime, mas as pessoas utilizavam esse princípio para extorquir o próximo cobrando valores monetários muito superiores aos danos causados; muitos escribas e fariseus também corrompiam a lei para justificar vinganças pessoais contra inimigos sem passar pelos julgamentos dos juízes, Jesus porém vai no sentido contrário de sua época estabelecendo a vingança como algo para Deus.

Jesus: nova interpretação ou um retorno ao original?

De maneira nenhuma Jesus estabelece a revogação da lei de talião, ele está preocupado com a maneira que seus discípulos vão corresponder quando forem individualmente maltratados, por isso sua sentença é “não resistais ao perverso (Mateus 5.39a)”, aqui a palavra para perverso é referente ao homem mau e não simplesmente ao mau abstrato (o diabo), a este deve-se resistir. Não resistir ao homem mau não significa não procurar por justiça, como escreveu John MacArthur “Não deter o mal não é justo nem benigno. Ele não protege o inocente e tem o efeito de incentivar o iníquo em sua maldade. Deter apropriadamente o mal não é só justo, mas também beneficente… Descer o padrão de justiça de Deus é descer o padrão de integridade de Deus – o qual Jesus veio cumprir e esclarecer, e não remover ou rebaixar.”[1], é errado pensar que Jesus estava se omitindo em favor da injustiça, ele mesmo resistiu ao mau quando expulsou os vendilhões do templo (João 2.13-22) e se opôs a hipocrisia dos escribas e fariseus (Mateus 23.1-36), na verdade Jesus está fazendo prevalecer a não vingança e não violência pessoal, ensinando que a justiça com as próprias mãos não é aceita por Deus.

Jesus estabelece uma nova prática para retornar ao objetivo divino original da lei de talião. Se por um lado Jesus está reprimindo o pensamento errado dos fariseus e escribas em procurar na lei de talião motivação para a prática da violência com as próprias mãos, por outro ele volta ao princípio divino quando Deus estabeleceu a lei do talião: a justiça e o direito àquele que sofreu danos físicos e materiais. A prática do ensino de Jesus leva ao caráter desejado por Deus na lei de Moisés. Veja em Mateus 5.39b-42 as ilustrações dadas por Jesus: “se alguém ferir a face direita, volta-lhe também a outra” bater na face direita (com as costas das mãos) era uma ofensa mais grave que bater simplesmente com a palma da mão, Jesus diz para dar as duas faces, não há retribuição ao ato. “Ao que quer debandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa” ao tirar a túnica, restava somente a capa para proteger-se do frio, Jesus diz para dar tudo mesmo tendo que enfrentar dificuldades. “Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas”, um soldado romano podia obrigar o cidadão a carregar seu fardo por até uma milha, Jesus diz para andar o dobro, realizando uma tarefa desagradável. “Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes” Jesus diz para ser generoso com aqueles que estão necessitados e com dificuldades financeiras.

Jesus vai a limites profundos da prática cristã, tal ensinamento vai além de um simples esquivar-se da vingança, mas ao sofrer uma violência o cristão irá “executar gestos de benevolência gratuita, [e esses gestos] só se pode entender como expressão de amor autentico, numa procura de imitação da perfeição do próprio Deus.”[2] (grifo meu), ao cumprir-se o princípio estabelecido por Jesus em Mateus 5.39-42 estará sendo cumprido o propósito de Deus dado em Êxodo 21.24. Assim Jesus praticou em sua vida pois “ofereci as costas aos que me feriam e as faces, aos que me arrancavam os cabelos; não escondi meu rosto aos que me afrontavam e me cuspiam” (Isaias 50.6; Marcos 15.16-20).

Consequências aos discípulos no Novo Testamento

A interpretação dada por Jesus ao “olho por olho; dente por dente; …” traz consequências práticas na vida dos discípulos no Novo Testamento, Estevão entendeu bem ao orar para Deus não imputar os pecados àqueles que o apedrejavam (Atos 7.54-60), as diversas prisões dos apóstolos e até a perseguição romana narrada no livro de Apocalipse mostra o exemplo dos discípulos de Jesus entregando a Deus a justa vingança (Apocalipse 6.10), contudo todos procuravam contar com a simpatia de todo povo, mantendo-se distantes da violência e vingança procuravam seguir o conselho de Paulo “no que depender de vós, tende paz com todos os homens” (Romanos 12.18). Portanto o ensino de Jesus não é impossível, mas desafiante.

Jesus implanta um modelo de relacionamento novo para seus contemporâneos, que apesar de Deus já ter implantado o mesmo modelo quinze séculos antes são com os discípulos de Jesus que a generosidade e o amor verdadeiro ganham vida no cerne da nação santa, chamada igreja. No mundo egocêntrico onde todos procuram seus interesses pessoais, incluindo a vingança, surge o modelo (não fácil, mas encorajador) dado por Jesus para testemunhar tanto na comunhão eclesial como no mundo a possibilidade de paz nas relações humanas.

Bibliografia

Bíblia de Estudo Almeida. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013.

DUMAIS, Marcel. O Sermão da Montanha – Mateus 5—7. São Paulo: Paulus, 1998.

HOFF, Paul. O Pentateuco. São Paulo: Editora Vida, 2006.

John MacArthur, Jr., The MacArthur New Testament Comentary: Matthew 1—7. Chicago: Moody Press, 1985.

MACDONALD, William. Comentário Bíblico Popular – Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2011.

MACDONALD, William. Comentário Bíblico Popular – Novo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2011.

SOBRAL, Ricardo J.C.. O Sermão do Monte. Recife: EBNESR, 2016.


[1] John MacArthur, Jr., The MacArthur New Testament Comentary: Matthew 1—7, p. 332.

[2] Dumais, Marcel, O Sermão da Montanha, p. 52.

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