O pecado do racismo e o juízo final

Entre George Floyd, João Pedro e Miguel, qual nosso papel diante do racismo? São histórias reais de pessoas que morrem sufocadas pelo joelho de alguém enquanto imploram por um pouco de ar em seus pulmões, histórias reais de adolescentes que estando no seu lar protegendo-se de uma pandemia recebem visitas inesperadas trazendo um tiro pelas costas, histórias de crianças que caem do nono andar porque teve o “azar” – ironia – de ter nascido filho da empregada, antes tivesse nascido cachorrinho da patroa, pois teria um bom tratamento a pão de ló. O que nós, cristãos, temos a ver com tais histórias? Leia parte do sermão escatológico de Jesus e medite um pouco comigo:


31 — Quando o Filho do Homem vier na sua majestade e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. 32Todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos: 33porá as ovelhas à sua direita e os cabritos, à sua esquerda.

34 — Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: “Venham, benditos de meu Pai! Venham herdar o Reino que está preparado para vocês desde a fundação do mundo.  35Porque tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; eu era forasteiro, e vocês me hospedaram; 36eu estava nu, e vocês me vestiram; enfermo, e me visitaram; preso, e foram me ver.”

37 — Então os justos perguntarão: “Quando foi que vimos o senhor com fome e lhe demos de comer? Ou com sede e lhe demos de beber? 38E quando foi que vimos o senhor como forasteiro e o hospedamos? Ou nu e o vestimos? 39E quando foi que vimos o senhor enfermo ou preso e fomos visitá-lo?”

40 — O Rei, respondendo, lhes dirá: “Em verdade lhes digo que, sempre que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram.”


Ao ler esse texto, geralmente vem em nossas mentes pessoas como mendigos, moradores de rua, pobreza extrema, mas para fazermos uma boa exegese desse texto precisamos, claro, entender a linguagem poética que Jesus está falando e portanto a mensagem não está necessariamente nos detalhes, apesar deles nos ajudarem, mas no conjunto do cenário e este cenário nos remete a questão da empatia X omissão; empatia por Jesus ter se colocado na posição dos pequeninos, e omissão porque aqueles que se omitem diante dos pequeninos serão condenados.

Entendendo sua linguagem literária poética, estamos aptos agora a entender quem são esses de que Jesus está falando neste texto, e para entender é preciso analisar quem Jesus prestou assistência durante sua vida, então percebemos que estão inclusos neste grupo pessoas como o cego Bartimeu, que tinha uma família, seu pai possivelmente era conhecido dentre o povo, afinal seu nome é relatado na bíblia, mas por causa de sua deficiência física estava ali à margem da sociedade, está incluso também o leproso, ao qual Jesus não apenas o curou, mas tocou nele, Jesus reintegrou aquele leproso na sociedade, tanto pela cura, mas eu diria que mais ainda pelo toque, pois assim estava dando exemplo aos demais que o seguiam, neste grupo estavam publicanos, samaritanos e prostitutas. Ou seja, neste grupo estão todos aqueles que por motivos físicos, sociais, e espirituais eram oprimidos, injustiçados e colocados à margem da sociedade. Então para trazer esse texto para hoje precisamos refletir quem são os atuais injustiçados e marginalizados na sociedade atual, é aí onde entra a questão do racismo.

OBS.: Alguém pode pensar: ah, mas existiam negros na época de Jesus e não vemos Jesus condenar questões de racismo ou escravidão. Precisamos entender que o princípio número um para estudar história é a verificação, ou seja, precisamos ir até o momento histórico e observar como de fato acontecia, e se fizermos esse processo vamos perceber que escravidão no mundo do primeiro século era totalmente diferente de como conhecemos no Brasil, não era motivado por cor da pele, nem viviam em senzalas, mas tinham seus próprios lares, sua família e diariamente iam trabalhar para seu senhor e voltavam para casa com seu salário. O racismo é, portanto, uma opressão que não existia na época de Jesus, surge séculos depois. Mas percebemos que Jesus em toda sua vida se empenhou em favor de todos aqueles que por algum motivo tiveram suas vidas comum corrompidas ou, até mesmo, interrompidas devido a opressão ou segregação existente.

Então, falando de um texto bíblico onde o cumprimento está no dia do juízo final e sua aplicação em todo tempo, a exortação é para olharmos para o nosso tempo e refletir em opressões como o racismo. Pecado este que tem como um de seus principais nomes de denúncia um pastor cristão chamado Matin Luther King que num momento de grande desemprego e pobreza entre os negros dos EUA, de leis inteiramente segregacionistas, num país onde não se podia ter as mesmas escolas, frequentar os mesmos locais, nem sequer beber da mesma água, ele decidiu gritar “eu tenho um sonho” e pacificamente se empenhou em combater este pecado, recebeu o prêmio nobel da paz, atingiu a fama mundial, mas que também lhe trouxe consequências, sofreu difamações, fakenews, prisão, teve seu ministério desgastado, perdeu boa parte do sustento de seu ministério, mesmo na luta pacifista passou a ser encarado como uma ameaça a sociedade e ser vigiado 24H pela polícia, até ser assassinado com um tiro quando estava na varando de um hotel.

O mesmo Martin Luther King certa vez disse “a tragédia final não é a opressão e a crueldade das pessoas más, mas o silêncio das pessoas boas” talvez pensando em textos como esse que estamos estudando hoje, que fala sobre omissão, que fala sobre a empatia de Jesus e a falta dela por muitos que se consideravam como bons e religiosos.

E é sobre essa empatia que eu desejo exortar todos, porque eu, sendo branco, não sinto na pele o preconceito que os negros sofrem, eu sei que se algum dia eu conseguir um bom emprego e decidir morar em um bom bairro de predominância branca, e ter um bom carro, ninguém vai olhar para mim com olhares transversais, nem irá me confundir com o porteiro do prédio, nem nenhum policial irá pensar que estou roubando meu próprio carro, nenhum agente do estado irá entrar na minha casa e atirar em meu filho de 14 anos. Quantos João Pedro’s ou George Floyd’s terão de morrer? Quantos Migueis terão de cair do nono andar pelo simples fato de ser “apenas” o filho da empregada? Talvez se ele fosse o cachorro da patroa tivesse um tratamento a pão de ló pela mesma. Certo escritor uma vez disse que o cristão ao tentar melhorar a sociedade não está sendo mundano, mas amoroso. Por outro lado, lavar as mãos diante das injustiças não é amor, mas mundanismo (Griffiths, 1972).

Como cristãos precisamos ter empatia, mas não somente uma empatia baseada num sentimento sem prática, mas aquela que presta assistência, que tira da segregação e da margem da sociedade para colocar no seu devido lugar que é “a imagem e semelhança de Deus” (Gn 1.26). Muitas vezes falamos que somos sal da terra e luz do mundo, mas não refletimos na implicação que isso traz, porque para ser sal e luz precisamos primeiro observar como o mundo está, quais as relações sociais, quais estruturas existem que agride o pensamento bíblico sobre a humanidade. O pensamento central bíblico é que todos nós somos feitos à imagem e semelhança de Jesus, talvez seja exatamente por isso que Jesus se coloca no lugar deles, para que observemos tudo que foge desse plano, e digamos “volte!” e denunciemos como pecado.

Meu irmão, minha irmã, se você acha que a bíblia da espaço para você agir, dialogar ou cooperar com o racismo, saiba que isso é pecado, todos nós precisamos ter consciência disso, precisamos nos arrepender por todas as vezes que ficamos calados, pelas vezes que ajudamos a propagação do racismo estrutural, enfim, devemos observar as bases que sustentam este pecado e questioná-las e derrubá-las para assim construir coisas novas.

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